Há um risco à espreita de quem reflete sobre o próprio desenvolvimento, de quem se interessa por produtividade, de quem deseja lapidar-se com o tempo. Incomodar-se é importante, não me entenda mal – embora, enquanto não gerar atos concretos, não é ainda virtude alguma. Mas há, sim, um risco.
O risco de se achar suficiente.
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| «Quem é você? Diga logo, que eu quero saber.» – Somos barro. O barro mais amado do universo; mas, ainda, barro. |
Apenas a partilha de um pai
Quero, aqui, somente compartilhar algo que me ocorreu esses dias. Como mencionei num story do Instagram, meu filho pequeno passou por uma pequena cirurgia. O fato aconteceu na segunda noite no hospital, que foi bastante desafiadora.
Rafael tem apenas 1 ano e 3 meses e, impaciente e incomodado, chorava muito. Embora ainda tome o leite materno, não se contentava em mamar. O colo não o acalmava. Mais que o cansaço, nos doía vê-lo sem consolo. Após um bom tempo de choro, caía no sono pesado, para acordar entre 30min e 1h depois.

Ele ainda carregava nas costas da mão direita um acesso venoso, por onde recebia, embora reclamando, analgésicos e antibióticos periodicamente. Como os médicos viram, na manhã anterior, que ele estava bastante agitado e se debatendo muito, por medo, tomaram a precaução de envolver o acesso com faixas e uma tala, criando uma luva rígida. Foi uma ótima ideia, por sinal.
Só que, com as brincadeiras e movimentos do dia, essa “luva” estava escorregando. Naquela noite, de madrugada, o dedão até já estava fora. Se perdêssemos o acesso, seria preciso criá-lo novamente na manhã seguinte – um pequeno sofrimento a mais para Rafa.
Naquela hora da madrugada, ele estava mamando, recebendo o antibiótico pelo acesso. Tinha adormecido, tomado pelo cansaço, mas frequentemente movimentava o braço para lá e para cá, afrouxando mais as faixas do acesso. Não havia nada mais que pudéssemos fazer, a luva iria cair. Quando visse o acesso desvelado, preso à mão por esparadrapos, certamente Rafael iria querer tirar. Eu iria chamar a enfermeira para reatar as faixas, mas precisaríamos segurar um Rafael se debatendo, aos berros, sabe-se lá por quanto tempo. E sabe-se lá como ficaria essa luva.
Em retrospecto, vejo que a situação parecia objetivamente pouco grave. Tínhamos as enfermeiras à disposição. Mas os pais não se importam apenas com a saúde física dos filhos – seu sofrimento integral nos importa.
Resolvemos chamar a enfermeira naquele instante, enquanto ele dormia um sono que, segundo nossa impressão, era leve. Eis que veio Sandra.
A solução não vem por mim. Por que viria?
Sandra demonstrava uma empatia e cuidado fora do comum. Pedindo para acender apenas uma luz de penumbra, ela vagarosamente retirou o soro com antibiótico, tão logo a dose acabou, e pôs-se a desenfaixar a “luva” para tentar reatá-la ainda com Rafael dormindo. Rezei para que ele não acordasse.
Sandra gentilmente desfez uma, duas, três voltas da faixa, segurando a mão mole de Rafa, e ele não acordou. Ela reposicionou a tala devagar e começou a enfaixar. Alternando voltas na mão, com voltas no meio do antebraço, com voltas intermediárias. Cortou um esparadrapo em silêncio e colou sobre as pontas da faixa.
E conseguiu. Rafa estava com o acesso protegido novamente sob faixas reatadas no abraço e… ainda dormia.
Não se desespere em face ao que não pode controlar
Há uma expressão cristã, atribuída a Santo Inácio de Loyola, que diz
“Aja como se tudo dependesse de você, sabendo bem que, na realidade, tudo depende de Deus”
cf. Pedro de Ribadeneira, Vida de S. Inácio de Loyola, Milão, 1998.
Ela representa bem esta postura humilde diante das provações da vida. Devemos sempre dar nosso melhor para nos precaver, nos fortalecer, resistir, superar, estar sempre prontos, mas sabendo que não somos autossuficientes.
Aqui estão memórias e reflexões que me marcaram. Hoje eu vim desprovido de livros ou referências, munido apenas de uma partilha, porque senti necessidade de colocar isso para fora. Espero que isso nos lembre de
