Eu sei, pode parecer um assunto batido, mas não vi nenhum conselho de carreira melhor do que o livro So Good They Can’t Ignore You. E, para uma geração de múltiplas opções e que sonha com um propósito, a solidez dos comentários de Cal Newport é uma bússola que põe as coisas em ordem. Não é que amar o que se faz seja ruim – pelo contrário –, mas não é por aí que se começa. Vamos ver os principais pontos deste livro e o que realmente leva alguém a encontrar a carreira que ama. Tenho certeza de que você encontrará algo interessante aqui.

fig1

A hipótese da paixão

Em 2005, Steve Jobs fez um discurso histórico numa formatura de graduação de Stanford (aquele do Stay hungry, stay foolish), e lá está o conselho clássico:

Você precisa encontrar o que ama. Da mesma forma que isso é verdade para nossos relacionamentos, é verdade para o trabalho. Ele preencherá boa parte de sua vida, e a única maneira de ser verdadeiramente realizado é fazer o que você acredita ser um bom trabalho. E a única maneira de fazer um bom trabalho é fazer o que se ama.

Steve Jobs (tradução livre, aos 8min 07s)

Newport diz que essa ideia, de que é necessário encontrar minha afinidade ou paixão específica e, depois, buscar o emprego que se encaixe com ela, é enganadora. Batizada de hipótese da paixão, ela possui algumas falhas, como

  • O que amo muda com o tempo, com minhas experiências e minha mentalidade.
  • Pensar que devo sentir que tenho uma vocação pré-existente para uma carreira é paralisante, porque paixão é algo raro. Essa fagulha que esperamos sentir é, tal qual qualquer outro sentimento, volátil e imprevisível.
  • Cria a falsa esperança de que existe um emprego perfeito, em que causarei alto impacto na sociedade ou lutarei por uma causa extraordinária.

O erro está em focar o ponto de partida neste conceito perigosamente sedutor e difuso de paixão. O risco de pensar em como eu me sinto neste ou aquele trabalho é imenso. O ponto é: como diz Simon Sinek, paixão é o que surge depois, não o que colocamos antes.

Steve Jobs não era previamente apaixonado por estética e caligrafia, ou por user experience, ou por criar uma marca que mudaria o mundo. Na realidade, ele estava atento às oportunidades ao seu redor e demonstrava sempre grande determinação por levar à perfeição seus talentos e a qualidade de seus serviços através de trabalho duro. Ele acumulou, podemos dizer, bastante capital de carreira.

O capital de carreira e a prática deliberada

A resposta de Cal à hipótese da paixão é a seguinte: meu trabalho não pode ser a simples manifestação do que gosto de fazer, mas deve ser um conjunto de competências raras e de valor, aperfeiçoadas com muito esforço e tempo (é o chamado mindset do artesão). Essas habilidades são como que um capital de carreira, uma moeda que lhe permite “comprar” um bom emprego no mercado de trabalho.

Mas como adquirir mais capital de carreira? Aqui, Cal insiste no conceito já conhecido de prática deliberada, que significa treinar repetidamente a habilidade que se deseja aperfeiçoar, focando rigorosamente nos pontos de melhoria, e colhendo feedbacks. O treino precisa ser desconfortável, levando-nos para fora da zona de conforto e trabalhando nos detalhes. Para um guitarrista, significa treinar um trecho particularmente difícil de um solo de forma lenta, repetidamente, e depois ir acelerando com o tempo. Feedback honesto é fundamental (como gravar-se solando e depois conferir). Para trabalhadores do conhecimento, pode significar gastar mais tempo de estudo focado em um tópico, ou ensaiar uma apresentação comercial no espelho. É preciso gerir bem a atenção (ou, nos termos de outro livro do Newport, fazer deep work). Em suma, é necessário listar com clareza os pontos de melhoria e trabalhá-los de forma sistemática.

Com o capital de carreira em mãos, Cal recomenda um caminho para escolher os melhores empregos do mercado: preferir aqueles que lhe deem controle. Ele aponta que trabalhadores que possuem maior autonomia sobre sua carreira têm mais satisfação profissional (é um reflexo da relação entre um locus de controle interno e automotivação, que comentei aqui) e, como pode-se imaginar, só há maior autonomia quando há mais capital de carreira – mais habilidades raras e bem avaliadas pelo mercado.

A importância da missão

Depois de adquirir capital de carreira e utilizá-lo para obter uma carreira com mais controle – Cal comenta – finalmente chega a hora do propósito, ou missão. Aquilo que Simon Sinek diz ser o ponto de partida, Newport diz que vem bem depois, e por um bom motivo: só é possível enxergar uma grande missão, que se consiga tomar para si, após muito capital de carreira.

O raciocínio de Cal é que no início de nossas carreiras, embora possamos ver que há grandes problemas no mundo para resolver, não conseguimos enxergar soluções para desafios complexos. Nossa visão é limitada pelo nosso conhecimento e experiência, como o feixe de luz que sai de uma lanterna em nossas mãos. Para enxergar um grande problema e uma grande solução, precisamos fortalecer nosso pequeno farol com o tempo.

fig1
À medida que aperfeiçoamos nosso conhecimento e técnica, o feixe de luz de nossa visão alcança mais longe. Podemos enxergar com mais clareza onde e como contribuir com o mundo.

Ou seja, o grande propósito que muitos anseiam surgir no início da carreira profissional, possivelmente demorará para ser encontrado, se algum dia o for. A escolha profissional não é, via de regra, fruto de uma grande revelação sobrenatural, de um grande insight para uma pergunta complexa, mas é uma questão de trabalhar suas aptidões e observar as oportunidades em seu mundo concreto. Antes de causar impacto no mundo, trata-se de causar uma boa contribuição para a sua empresa, para seu bairro.

Resumindo

A perspectiva de Cal Newport para guiar o início e desenvolvimento da carreira profissional consiste, primeiramente, em acumular capital de carreira – competências raras e valiosas, esculpidas com muita prática deliberada. Este capital pode ser usado para adquirir ocupações que lhe deem autonomia e, com o tempo, lhe permitirão identificar e abraçar uma missão.

Desconheço outra abordagem mais sóbria, realista, motivante e didática do que esta. Cal tem uma habilidade impressionante para organizar as ideias e apresentá-las com clareza. Espero, tal como no início do texto, que alguma delas lhe tenha despertado o interesse.

Ah, e claro, espero que aqui você tenha ganho ao menos um pouco de capital de carreira.

Receba novos posts

* required